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A lembrança de um aroma

Paraná - Foz do Iguaçu - 19/12/2008

 

Ah, o cheiro de bolo saindo do forno... Ele é capaz de nos remeter a momentos calorosos do passado, como aquelas tardes de domingo em que as avós preparavam delícias para agradar os netos. Na literatura, nenhum registro sobre o despertar de lembranças por meio do olfato é mais notável do que o narrado pelo escritor francês Marcel Proust no primeiro dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido. Ele descreve um episódio que ilustra bem o que hoje se conhece como memória involuntária, aquela que surge por mero acaso: o aroma do bolinho madeleine embebido no chá evoca no protagonista cenas da infância que trazem “prazer delicioso” e “poderosa alegria”. A ciência explica esse fenômeno — o olfato é tão importante quanto os outros sentidos na retenção das recordações e está indissociavelmente ligado às emoções, mais até do que a visão e a audição.

Um curioso estudo da Universidade de Mannheim, na Alemanha, mostra o efeito emotivo dos aromas. Os cientistas borrifaram essência de flores em um grupo de voluntários e cheiro de ovo podre em outro — ambos dormiam profundamente. Ao despertarem, os que inspiraram a substância fedorenta relataram pesadelos, enquanto os demais descreveram ótimos sonhos. “Inconscientemente, a pessoa relaciona um odor com uma experiência vivida”, justifica Elizabeth Quagliato, neurologista da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, que fica no interior paulista.

Esse elo fica mais evidente em pacientes com Alzheimer. “O sistema olfativo é o primeiro atingido pela doença neurodegenerativa que apaga as lembranças”, conta o psicobiológo americano Charles Wysocki, do Centro Monell dos Sentidos Químicos, na Filadélfia. Ou seja, além de passar a borracha nos registros do passado, o Alzheimer dificulta a percepção dos cheiros. Isso porque as duas regiões do cérebro — a da percepção de odores e a da memorização —, além de próximas, conversam bastante uma com a outra. Um teste olfativo feito na Universidade McGill, do Canadá, flagrou a perda da capacidade de perceber cheiros quando a doença ainda é incipiente. “Esse exame é extremamente sensível, apesar de ser muito simples e barato”, explica Elizabeth Quagliato.

Alzheimer, memória e olfato estão a tal ponto ligados que alguns especialistas chegam a suspeitar de que partículas específicas captadas pelo nariz seriam capazes de deflagrar o mal. “Isso não passa de uma hipótese, que fique bem claro, mas não descarto que o meio externo dê um empurrão em certas doenças neurodegenerativas”, especula a neurologista Arlete Hilbig, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.


 

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